sábado, 24/02/2024
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Tem alguma coisa diferente acontecendo em Campo Grande

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Show da Intervenção em 2017 (ou fim de 2016). Foto: Josi Grenge

O rock autoral campo-grandense não respira mais por aparelhos


Eu me lembro das primeiras vezes.

Da primeira vez que vi o Toca Fitas, no finado Cavalo de Ferro. Da primeira vez que vi A Insana Corte tocando, na rampa do Morenão. Na Plataforma Ferroviária, conheci Os Alquimistas. Fui apresentado à Intervenção no quintal da minha antiga casa; ao Macumbapragringo, na antiga Subcultura. No Hangar, me impressionei com A Velha Carne pela primeira vez.


Cheguei em Campo Grande no ano de 2007. Minha relação com música, de lá pra cá, mudou significativamente.

Sempre gostei de rock. Porém, diferente de muitos amigos com formação roqueira mais ROBUSTA, também me envolvi com outros gêneros desde cedo. De qualquer forma, foi o rock que me tornou consumidor ativo de música. Foi Lithium que me fez querer ter um CD, pela primeira vez.

Nunca fui de sair de rolê em São Paulo pra pegar uns shows à noite. Já tinha ido a meia dúzia de big concerts de bandas que gostava, mas era diferente. Em Campo Grande, até por estar mais velho, passei a frequentar shows praticamente toda semana. No Barfly, à época, a gente assistia Rivers, Lynks, Old Barreiro, O Bando do Velho Jack, Bêbados Habilidosos, Impossíveis etc.

Não fazia distinção ainda entre autoral e cover. Gostava de sair pra ouvir música ao vivo e pronto. E de cultuar o copão.

Lembro de começar a perceber a importância dessa diferença em 2008, quando apareceram na cidade bandas como o Curimba e Louva Dub. Não que estas bandas tivessem inaugurado o autoral na cidade, mas os caras enfatizavam muito o fato de produzirem músicas (“Prestigiem a música autoral do Campão!”) e isso ficou na minha cabeça.

Essa cena tem um legado importante na produção autoral daqui, ainda que não fosse formada por bandas de rock. Este legado ainda vive através do Sarravulho, do Chá Noise (mesmo que em recesso) e da Marina Peralta.

Na mesma época, assisti alguns shows no ambiente que hoje me é mais familiar. Foi quando conheci o Toca Fitas, a Bravo e Dor de Ouvido. Esses caras e outros tantos do underground estão aí desde aquela época, faça chuva, faça sol.


Um pouco além, o bar Voodoo catalisou outra cena que provavelmente já estava em combustão fora do meu radar desatento pra caralho. Dimitri Pellz, Gobstopper, Idis, Facas Voadoras, Jennifer Magnética, Dead Cow e Os Corleones. Era a galera da Bigorna. Todos os meus fins de semana aconteciam lá.

Além de contar com bandas de rock daqui tocando praticamente só autoral, o bar trouxe um montão de coisas de fora que me deram outra dimensão do cenário musical brasileiro: Jair Naves, Macaco Bong, Hierofante Púrpura… Justiça seja feita: o Voodoo foi foda.

Um pouco antes disso, decidi tentar aprender um instrumento. Sem o menor compromisso mesmo, mas porque senti que me arrependeria dali a dez anos se não tivesse tentado. E fui tomar umas aulas de bateria.

Comecei a assistir os shows com outros olhos e ouvidos, óbvio. E foi um pouco depois, mas só um pouco depois, que fui pela primeira vez no Holandês Voador. Os amigos da Dead Cow iam tocar.

Lá, fiquei sabendo que o bar pertencia ao George, que tinha sido meu veterano na faculdade. A única coisa que sabia do George até então era das suas péssimas qualidades como zagueiro — nada muito destoante do resto do nosso horroroso time de Ciências Sociais/Biologia.

O que me marcou nesse primeiro Holandês era a sensação de total improviso: posso estar delirando, mas acho que tinha uma privada instalada no meio do palco. Era na Afonso Pena e já era totalmente acolhedor.

Devo ter ido mais algumas vezes lá, mas não me lembro. Um pouco depois, o Voodoo fechou por um motivo horrível — eu tava, claro — e a sensação que tive é que muita coisa desvaneceu junto com o bar.

Não lembro exatamente em que momento isso aconteceu, mas o Holandês sumiu da Afonso Pena e foi abrir do lado do Rockers — o bar da outra cena autoral supracitada –, lá pelos lados da UFMS. Costumava colar nos dois bares vez por outra e lembro do contraste sinistro que era você sair de um lugar onde o coro cantava, em uníssono, “Serve um tera!” para entrar em outro em que o vocalista da banda estava mandando Deus tomar no cu ou algo do tipo.

O Holandês era bem democrático. Já abrigava gente de tudo que é tipo, bandas autorais e covers… E tinha um quadro de Nossa Senhora ou Jesus Cristo na parede. O Rockers tinha mais identificação com o público universitário e shows das bandas da galera ligada ao bar.

Em 2013, fui morar em Corumbá e perdi o fio da meada das coisas que aconteciam em Campo Grande. Fiquei um ano inteiro sem tocar bateria.


Voltei em 2014 e o Holandês já não existia mais, acho. O Rockers não me interessava mais e creio que deixou de existir pouco tempo depois, também.

Estava tendo a maior dificuldade de escrever a dissertação, mas foi nesse ano que tive minha primeira banda. Era instrumental e a gente só ensaiava. Não tínhamos a menor pretensão de tocar até porque acho que não existia um lugar acessível o suficiente pra isso. Foi a época do bluesboom em Campo Grande.

O surgimento do primeiro Blues Bar, na via Park, impulsionou o blues de uma maneira muito louca na cidade. Os Bêbados Habilidosos eram a única banda exclusivamente autoral desse nicho, mas isso foi o mais próximo que tivemos de uma popularização do rock por aqui depois do Voodoo e da Bigorna. Foi lá no Blues que conheci o Marcinho, meu maior parceiro nesta caminhada até aqui.

O tempo passou e o Blues Bar mudou duas vezes de lugar. As mortes do Renato Fernandes e de um dos donos do bar, me parece, arrefeceram o blues por aqui. Hoje é mais um bar aparentemente rentável, mas que prioriza bandas que fazem cover de rock.


Nesse meio tempo, começaram a emergir as coisas que efetivamente estão mais ligadas ao que acontece hoje na cidade.

Lembro que vi um show d’A Insana Corte na rampa do Morenão e fiquei com uma puta impressão de “Isso é alguma coisa diferente”. O show d’Os Alquimistas na Plataforma Ferroviária me fez perceber que tinham uns moleques tocando rock na cidade.

Próximo disso, minha primeira banda terminou porque o baixista voltou para sua terra natal, o Rio de Janeiro.

Um tempo depois, chamei o Marcinho pra nossa segunda banda. Começamos a Viaduto Solar (haha) tirando covers de rock que gostávamos e foi com essa banda que toquei ao vivo pela primeira vez, no Trem Mineiro — o bar da Lagoa Itatiaia que teve alguma importância não me lembro quando, nem porquê.

Nessa época, o que acontecia de mais maneiro na cidade eram os Sarobás. Num deles, na praça do Preto Velho — que na minha cabeça parecia o mais próximo de Woodstock que poderíamos chegar –, assisti um baita show dos Ciganos da Percepção. E saí de lá totalmente decidido a ter um power trio. Na semana seguinte formei a The Linquentes.

Foi quando comecei a tocar praticamente só autoral e o cover foi começado a perder a graça. O primeiro show da The Linquentes foi na festa de despedida da minha antiga casa coletiva. O lineup (haha) contava também com a Viaduto Solar e uma banda que eu não conhecia, de uns amigos do pessoal que morava comigo. Era a Intervenção.

Tinha conhecido o Felipe e a Binha num show do Paralamas na Feira Central. Trocamos uma ideia porque o Felipe tava usando uma camiseta da Casa Mafalda, lugar em São Paulo que pertencia a um time da várzea pelo qual nós dois jogamos em épocas diferentes (Autônomos F. C.). Mas assistir a Intervenção tocar pela primeira vez foi impactante.

Numa confluência tão exata que os menos céticos poderiam classificar como DESTINO, o Holandês Voador havia acabado de reabrir, no ponto em que está até hoje: Antônio Maria Coelho com Calógeras, Boca do Lixo. Isso já no final de 2015.

The Linquentes tocou em todos os lugares que podia: Holandês, Vai ou Racha, Dinno, Barganha’s Motorcycles Pub, Hangar. Os três primeiros foram definitivamente os lugares fundamentais para a construção do cenário atual. Foram nestes lugares que tocamos com outras bandas e nos envolvemos com elas. Éramos nós, as bandas, que por um tempo formávamos o público quase que exclusivo uns dos outros.

Foi por aí que conhecemos a Burning Universe, os Bizonhentos e O Lixo e a Fúria, por exemplo. No mesmo período, assisti um show do reformulado Toca Fitas, que eu não via há uns cinco anos. E foi quando vi A Velha Carne pela primeira vez, fato que me marcou e inspirou profundamente.

No início de 2016, outro acontecimento importante: o George se afastou do Holandês por motivos pessoais. Uma galera que tocava e frequentava lá formou o Coletivo Holandês Voador pra administrar o bar temporariamente. Foi uma intensa experiência de autogestão.

Num período de, sei lá, dois meses, o Coletivo fez muitas coisas. Colocamos bandas pra tocar, fizemos rolês de discotecagem, agilizamos a pintura… O Holandês Voador passou a atrair pessoas que ordinariamente não eram frequentadores do bar. Lembro de virar pro Felipe no auge de uma festa e dizer “Mano, até o cara do Mochileiros tá aqui hoje”. Haha.

O massa era que nós éramos pessoas antigas e novas de vários rolês. Tinha gente do underground das antigas, da Bigorna, gente dos rolês de discotecagem, de novas e velhas bandas, de experiências de outras cidades e frequentadores assíduos que só queriam ver o bar prosperar. Havia mulheres e homens. E todos tinham voz.

Essa experiência me conectou muito com esses semi-desconhecidos pra mim até então. Hoje chamo a maioria deles de amigos, cada dia mais. E até hoje nós organizamos juntos os rolês no bar, muitos de nós passaram a tocar na mesma banda, emprestamos equipamentos uns para os outros… Alguns até vão abrir um bar novo.

Infelizmente o Coletivo findou por conta de discordâncias internas e com o George, também. Mas isso é assunto pra outro relato. No fim das contas, o que restou pra gente foram grandes laços e a formação de um núcleo de pessoas com quem sabíamos que poderíamos contar pra impulsionar a cena.

Foi então que o Holandês fechou, de novo.


Depois reabriu, de novo.

The Linquentes terminou. Formei a Epidemia de Dança de 1518, que depois virou a Caravana da Desgraça. O mais louco é que os caras que tocam comigo hoje — tirando o Marcinho, presente em todas as minhas bandas — são caras que eu admirava de outras bandas que conheci de dois anos pra cá.

E nisso, sem eu nem perceber direito, estavam aparecendo um monte de bandas autorais na cidade. Ótimas bandas. E totalmente diferentes umas das outras.

De cabeça, consigo pensar na seguinte lista, hoje: Caravana da Desgraça, Toca Fitas, Intervenção, Macumbapragringo, Os Alquimistas, Peixes Entrópicos, Video Sonic, Bizonhentos, Burning Universe, A Insana Corte, Os Cardigans, Francisco e Seus Capangas, Astronauta Elvis, Arizona Nunca Mais, Diabo Rural, James Dylan & The Garden Green, Camaleônia, Codinome Winchester, O Lixo e a Fúria, Bravo.

E tem muito mais, com certeza. E todos os integrantes de todas essas bandas têm pelo menos uma ideia de projeto paralelo. Haha.

Já perdi as contas das vezes que saí de um show de alguma dessas bandas pensando algo do tipo “Que música foda, minha banda precisa de uma tão foda assim”, “Que show foda, precisamos melhorar o nosso”, “Caramba, os caras tão melhorando muito” ou me questionando sobre as influências dos caras etc.

A cena é predominantemente formada por caras, aliás. Mas sei que existem pelo menos três bandas só formadas por minas que estão sendo idealizadas neste exato momento. O que é sensacional.

Um tempo atrás, me lembro de perguntar pro Perim (Os Alquimistas) se eles estavam compondo músicas novas. Ele respondeu algo do tipo: “A gente parou um pouco. Tocamos nos lugares e quase ninguém vai assistir”.

Depois de uns meses, fizemos um rolê no Holandês Voador só com bandas autorais. Tudo foi organizado em uns cinco dias, muito pouco. Lotou. Muito. Os Alquimistas fizeram um show foda, com o público bastante envolvido.

Hoje, o público tem ido sempre, e cada vez mais. Seja às quartas no Drama, seja aos fins de semana no Holandês.

E a impressão que eu tenho é que pelo menos uma pessoa sai de cada um desses rolês querendo formar uma banda.


Se ainda não deu pra sacar o que eu tô tentando dizer — sem medo de zicar — é o seguinte:

Observei muita coisa nestes dez anos. Vi várias coisas nascerem e morrerem em Campo Grande. Claro que é só um olhar, e com certeza nem é o melhor.

Mas hoje nós não temos meia dúzia de bandas formando uma cena. Nós temos mais de VINTE bandas autorais em maior ou menor atividade, mas prontas pra tocarem amanhã, se solicitadas.

Nós não temos apenas um lugar pra tocar. Temos o Holandês, o Drama — que tem nos acolhido muito bem — e, em breve, o Resista. E espaços não-permanentes-porém-consolidados como o Sol Autoral, por exemplo. São lugares acessíveis, onde praticamente qualquer banda vai ter a sua vez de tocar. Isso já é um puta estímulo pro surgimento de novas bandas.

Temos um público muito mais aberto que há poucos anos. Público que hoje sai de casa disposto e até empolgado pra descobrir bandas novas. Saindo da zona de conforto que o cover oferece de só te colocar pra ouvir as mesmas coisas, sempre.

Porra.

Tem alguma coisa diferente acontecendo nesta cidade. E vai continuar acontecendo.

Eu vou me lembrar de muitas primeiras vezes, ainda.

P.S.: Forme uma banda

Fonte: Medium

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